A falta que o toque faz
O que acontece com
um recém-nascido privado do contato materno? Pesquisas demonstram que a ruptura
do contato leva à violência. É em famílias com pais desatenciosos ou violentos
que a delinqüência se manifesta com mais freqüência. Um estudo conduzido pelo
pesquisador americano P. H. Prescott entre 49 povos de sociedades
não-industriais, com características muito semelhantes, sugere que a privação
do toque, do contato e dos movimentos corporais são as causas básicas de vários
distúrbios emocionais, incluindo comportamentos depressivos e autistas,
hiperatividade, aberração sexual, uso abusivo de drogas, violência e agressão.
A partir da análise de culturas similares, como as dos povos ainu, no Japão, e
zuni, no Novo México,
Estados Unidos,
observou-se que os maiores índices de violência entre os adultos estavam
presentes exatamente nos povos em que as crianças recebiam menos afeto físico.
E nenhuma violência entre adultos foi registrada nas culturas com alto grau de
afeição física com as crianças. É verdade que essa descoberta pode estar
associada a outros fatores, mas o estudo não encontrou nenhuma outra variável
que pudesse explicar o fenômeno.
A criança sem
contato físico também enfrenta problemas de sono – e o sono, como se sabe, é um
forte redutor do estresse e um aliado da reposição de energia e do bem-estar.
Mais surpreendente
ainda foi a descoberta de que a privação do contato afeta o sistema
imunológico. Trabalhando com macacos, o cientista Steve Suomi, do Instituto
Nacional de Saúde do governo norte-americano, encontrou uma relação direta
entre a quantidade de contato e de cuidado que um bebê recebe nos primeiros
seis ou sete meses e sua capacidade de produzir anticorpos ao ser inoculado com
o bacilo do tétano depois de completar um ano de vida. O sistema imunológico
dos animais que foram separados da mãe reagiram menos ao ataque. A explicação
estaria no fato de que, com menos contato, o nível do hormônio responsável pelo
estresse se eleva, o que fragilizaria o sistema imunológico. Da mesma forma, o
relaxamento provocado em pessoas que receberam massagens reduz a adrenalina
(hormônio ligado ao estresse), melhorando também a defesa do organismo contra
doenças.
A falta de sono,
causada por privação ao toque, também pode comprometer nosso sistema de defesa.
Tiffany Field encontrou doenças freqüentes em crianças em idade pré-escolar que
ficavam separadas das mães, como diarréia, prisão de ventre e infecções
respiratórias. Outro estudo revelou que bebês de dez semanas que recebiam massagens
das mães nas costas tinham menos diarréia e resfriado que as outras.
Até mesmo o
crescimento pode ser retardado pela falta de contato entre pais e filhos. Em um
estudo com ratos, pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Duke,
nos Estados Unidos, descobriram que, longe das mães, os roedores apresentavam
um declínio significativo do hormônio do crescimento e da ornitina
decarboxilase (ODC), enzima que faz parte da cadeia da síntese protéica,
importante para o bom funcionamento do sistema imunológico. Como as mamães
ratas entram em contato com seus filhotes por meio de lambidas nos ratinhos, os
pesquisadores simularam o mesmo comportamento com um pincel com água,
conseguindo reverter os efeitos da privação. Depois do anúncio da pesquisa, a
universidade recebeu inúmeras cartas de pessoas de baixa estatura dizendo que
foram bem cuidadas na infância. O chefe das pesquisas, Saul Schanberg,
respondeu às críticas dizendo que a altura é determinada pelos genes, mas a
estimulação seria o que ajudaria os genes a se expressar.
As terapias do toque
As terapias de
toque são milenares – o texto médico mais antigo da Índia, a Ayurveda (1800 a.C.) já prescrevia
massagens como uma forma eficiente de cura.
Há, no Ocidente, várias teorias sobre os efeitos dessa
espécie de massagem. Uma sugere que há um aumento na atividade do nervo vago
(nervo craniano que abastece o corpo de sensações), o que relaxaria o paciente.
Outras defendem que a redução do estresse e dos espasmos musculares seria
conseqüência de uma maior liberação de glicose, proporcionada pela potente
massagem.
Independentemente
da eficiência de todas essas terapias, a maioria dos pesquisadores concorda num
ponto: um simples toque humano é um meio eficiente e barato de melhorar a sua
qualidade de vida.
Para saber mais
Na livraria
Touch Tiffany Field, MIT
Press, 2001