8 de out. de 2013

A falta que o toque faz



 
A falta que o toque faz
O que acontece com um recém-nascido privado do contato materno? Pesquisas demonstram que a ruptura do contato leva à violência. É em famílias com pais desatenciosos ou violentos que a delinqüência se manifesta com mais freqüência. Um estudo conduzido pelo pesquisador americano P. H. Prescott entre 49 povos de sociedades não-industriais, com características muito semelhantes, sugere que a privação do toque, do contato e dos movimentos corporais são as causas básicas de vários distúrbios emocionais, incluindo comportamentos depressivos e autistas, hiperatividade, aberração sexual, uso abusivo de drogas, violência e agressão. A partir da análise de culturas similares, como as dos povos ainu, no Japão, e zuni, no Novo México,
Estados Unidos, observou-se que os maiores índices de violência entre os adultos estavam presentes exatamente nos povos em que as crianças recebiam menos afeto físico. E nenhuma violência entre adultos foi registrada nas culturas com alto grau de afeição física com as crianças. É verdade que essa descoberta pode estar associada a outros fatores, mas o estudo não encontrou nenhuma outra variável que pudesse explicar o fenômeno.
A criança sem contato físico também enfrenta problemas de sono – e o sono, como se sabe, é um forte redutor do estresse e um aliado da reposição de energia e do bem-estar.
Mais surpreendente ainda foi a descoberta de que a privação do contato afeta o sistema imunológico. Trabalhando com macacos, o cientista Steve Suomi, do Instituto Nacional de Saúde do governo norte-americano, encontrou uma relação direta entre a quantidade de contato e de cuidado que um bebê recebe nos primeiros seis ou sete meses e sua capacidade de produzir anticorpos ao ser inoculado com o bacilo do tétano depois de completar um ano de vida. O sistema imunológico dos animais que foram separados da mãe reagiram menos ao ataque. A explicação estaria no fato de que, com menos contato, o nível do hormônio responsável pelo estresse se eleva, o que fragilizaria o sistema imunológico. Da mesma forma, o relaxamento provocado em pessoas que receberam massagens reduz a adrenalina (hormônio ligado ao estresse), melhorando também a defesa do organismo contra doenças.
A falta de sono, causada por privação ao toque, também pode comprometer nosso sistema de defesa. Tiffany Field encontrou doenças freqüentes em crianças em idade pré-escolar que ficavam separadas das mães, como diarréia, prisão de ventre e infecções respiratórias. Outro estudo revelou que bebês de dez semanas que recebiam massagens das mães nas costas tinham menos diarréia e resfriado que as outras.
Até mesmo o crescimento pode ser retardado pela falta de contato entre pais e filhos. Em um estudo com ratos, pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, descobriram que, longe das mães, os roedores apresentavam um declínio significativo do hormônio do crescimento e da ornitina decarboxilase (ODC), enzima que faz parte da cadeia da síntese protéica, importante para o bom funcionamento do sistema imunológico. Como as mamães ratas entram em contato com seus filhotes por meio de lambidas nos ratinhos, os pesquisadores simularam o mesmo comportamento com um pincel com água, conseguindo reverter os efeitos da privação. Depois do anúncio da pesquisa, a universidade recebeu inúmeras cartas de pessoas de baixa estatura dizendo que foram bem cuidadas na infância. O chefe das pesquisas, Saul Schanberg, respondeu às críticas dizendo que a altura é determinada pelos genes, mas a estimulação seria o que ajudaria os genes a se expressar.
As terapias do toque

As terapias de toque são milenares – o texto médico mais antigo da Índia, a Ayurveda (1800 a.C.) já prescrevia massagens como uma forma eficiente de cura. 
 Há, no Ocidente, várias teorias sobre os efeitos dessa espécie de massagem. Uma sugere que há um aumento na atividade do nervo vago (nervo craniano que abastece o corpo de sensações), o que relaxaria o paciente. Outras defendem que a redução do estresse e dos espasmos musculares seria conseqüência de uma maior liberação de glicose, proporcionada pela potente massagem.
Independentemente da eficiência de todas essas terapias, a maioria dos pesquisadores concorda num ponto: um simples toque humano é um meio eficiente e barato de melhorar a sua qualidade de vida.

Para saber mais

Na livraria
Touch Tiffany Field, MIT Press, 2001

Nenhum comentário:

Postar um comentário